domingo, 20 de dezembro de 2009

Num dia que nascia

Não digo que não à insaciável sucessão dos dias. Eles cilindram corpo e alma, até à planura de onde ainda se acredita no movimento em frente que a vida foi. Se digo não, apaga-se a derradeira luz e deixo de existir. Bastaria um toque, um sopro e todo o pensamento das coisas passadas e futuras cessaria. O agora, torturador de serviço, rumaria então para outras paragens e também eu, em direcção à paz e luz, beijadas num dia que nascia.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

5-12-09

O toque não tem passado,
é um perpétuo presente que me dás, que te dou.
Na ausência de ti,
sinto-te no sentir e a imaginação sorri.
O toque que partilhamos foi para sempre.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Estranhos na noite (A. de O. nº2)

Já não sou desta cidade. Já não sou de lugar nenhum. Meus pedaços de mim espalhados foram pelo vento gélido da impermanência. Estive aqui, sim. Ambos habitamos em tempos esta cidade. Caminhamos as promessas e ideais de um baptismo luminoso, inocente demais. Hoje somos estranhos na noite e a cidade outrora nossa já não existe.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Augúrios de outubro nº 7

Sumiste. Colocaste-te na evidência da morte de ti, da morte de mim. Não me deixaste velar-te. Vela então tu por mim, emoção ausente, que te foste na cupidez do presente. Agora que aqui não estás, talvez desça eu sobre ti, quando estiveres a dormir teu sono de menina. Colocarei a palma da mão na tua cabeça e abençoarei teus sonhos e rezarei pelo assombramento que a tua passagem foi. E que nem medos nem lágrimas te visitem de novo.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Na minha eternidade (A.O. Nº9)

No eterno do meu sentir, nasce devagar uma luz tão pequenina, que apenas consegue iluminar um canto distante da esperança escurecida. Poderia ser uma rosa vermelha, abençoada por um improvável arco-íris. Mas isso mais parece coisa de sonhos.
«Porque não te calas?» - Perguntaram-me já. Porque sou um criador – respondo eu – Um criador cria sobre aquilo que sente, aquilo que pensa, aquilo que experiencia, aquilo que lhe dói... A sua vida, tudo o que o rodeia é matéria de criação. E quando doí, cada obra criada pode ser grito, pode ser lágrima, pode ser compaixão… Pode ser pergunta... A resposta estará sempre em quem depois vê. E a resposta poderá ser outra pergunta. Sei que no eterno do meu sentir, na luz que recomeça… Vejo o teu rosto e reconheço-me a mim na minha eternidade.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Augúrios de Outubro nº4

Amar, não amar…Como se insinua este sentir, qual coluna tão levemente pesada? O amor surge como o nascer do sol. Está-se distraído e de repente é luz, é dia. Descobrimos a invencibilidade que desconhecíamos ter. Descobrimos que outro (sua sorte e infortúnio, beleza, sabor e sentir) é mais importante para nós do que nós próprios. «Eu amo-te» torna-se a oração, a canção da vida, o caminho sem dúvida. Sim, depois tornamo-nos descuidados. Temos tendência para assim ser com quem mais está dentro de nós. Desperdiçamos a nossa riqueza e claridade. Quando olhamos em volta, de olhos fechados, é a noite que vai caindo. E somos então de novo crianças com medo do escuro. Então, no meio da queda que não se sabe estar a dar-se, surge esse abismo, essa consciência da noite: «Eu já não te amo». A vida, tal como a conhecíamos, deixa de existir. Deixa de haver força ou desejo de pensar em porvir. Choram-se os porquês, os porque não… A matemática frieza com que nos apercebemos que já não fazemos vibrar o ser amado. Na verdade, morre-se e outro vai nascendo em nosso lugar. Um outro talvez mais forte e sereno, num amanhecer absolutamente no horizonte. E nos entardeceres do solstício de Verão, uma suave brisa trará sempre uma nostalgia, um pesar, mas também alegria. E o pensamento será: uma recordação é algo que se tem ou algo que se perdeu?

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Augúrios de Outubro nº5

Toda a ruptura simboliza, ao manifestar-se, a dualidade de todo o ser: tudo o que é vivo ou construído pode ser morto ou destruído, ou mais do que isso, trás o germe da sua própria destruição. In media vita in morte sumus (a morte jaz no coração da nossa vida). Vixnu e Xiva, deuses da destruição, não são mais do que dois nomes de uma única e mesma realidade. É a alternância da integração e da desintegração que significa a ruptura, marcando principalmente a fase negativa. Mas esta negação é a condição dum renascimento e de uma renovação. No plano material, dominar ou domar uma ruptura, uma infelicidade, é aceder a um outro nível de existência; o deleite moroso da ruptura, ao contrário, coloca a pessoa na via da regressão e da involução.
-O livro dos signos